Na noite de sexta-feira, 22 de maio, a internet pertenceu a uma mulher preta. A estilista queniana e fundadora da grife Hanifa, Anifa Mvuemba, estreou sua última coleção Pink Label Congo utilizando protótipos tridimensionais durante uma live do Instagram. A designer nos deu um vislumbre inovador do que é possível ser o novo normal das passarelas em um mundo pós epidemia.

Enquanto a maioria das marcas de moda retrocederam diante o avanço do COVID-19 e as restrições obrigatórias devido à necessidade de isolamento social, Anifa viu uma oportunidade. Um desfile digital não era o que estava planejado para a apresentação da nova coleção da grife, que já havia confirmada presença na NYFW. Entretanto a iniciativa de digitalizar as roupas e modelos em protótipos 3D não é algo recente para Anifa.

Cinco anos de planejamento e sete de execução foram necessários para concretizar o projeto da designer de alinhar tecnologia à moda de uma forma audaciosa. Desde 2018, a marca utiliza modelos tridimensionais em publicações no site e nas redes sociais. “Projetar conteúdos usando modelos 3D e agora uma coleção inteira mudou completamente o jogo para mim”, explica a estilista. O 3D de Mvuemba é curvilíneo e engajado com a inclusividade corporal da marca, que vende peças até com a numeração 54 (o que é inusitado para grifes que começam no manequim 34).

Esse novo modelo de desfile lançado por Hanifa foi marcado pela acessibilidade, uma vez que a apresentação da coleção Pink Label Congo não foi fechada a um pequeno grupo restrito de compradores e imprensa, nem seguiu a hierarquia elitista de pessoas mais ricas e importantes nas primeiras fileiras. Pelo contrário, o desfile deu um lugar na primeira fila para os expectadores de todas as origens.

A coleção Pink Label Congo é a segunda série da linha Pink Label, que estreou sua coleção inaugural em 19 de julho de 2019. A coleção de nove peças exibe calças e vestidos em cores vibrantes e é descrita como o futuro da moda nas passarelas, pelos espectadores.

Tributo à África

MÀI MAXI DRESS, INSPIRADO NO RIO CONGO “ONDE O OCEANO ATLÂNTICO BEIJA A TERRA” / REPRODUÇÃO: INSTAGRAM

Mvuemba disse em sua apresentação documental durante o lançamento que cada uma das roupas representa o Congo, seu país de origem. Sua coleção trabalhou propositalmente a justaposição da história do Congo, marcada pelo abuso de seus cidadãos, especialmente nas minas de coltan, e as belas paisagens do país. O Congo responde por mais de 60% da produção mundial de cobalto. Os telefones celulares que usamos todos os dias podem conter o mesmo coltan que muitas crianças e mulheres escavam nessas minas, sob condições desumanas.

Uma de suas peças, o mini vestido Kinshasa, é uma metáfora da bandeira do Congo com suas cores vermelho, azul e amarelo. “O vermelho representa a dor, o sangue e o sofrimento do país. O azul representa a paz, e então a estrela amarela representa a esperança do país”, ela acrescenta.

KINSHASA DRESS / REPRODUÇÃO: HANIFA.CO

A estilista faz questão de expor sua inspiração nas histórias das mulheres congolesas, passadas de geração para geração (ela cita as contadas por sua mãe) e as perdidas em meio às guerras pela exploração de minério no país. O conjunto de jeans Zaire é uma metáfora para o “equilíbrio” das mulheres do Congo.

“Todas as mulheres que eu conheci quando crescia, incluindo minha mãe, eram tão equilibradas e fortes. Sempre conheci todas as tias, vovós, todas as mulheres que encontrei para se comportar dessa maneira graciosa e queria que o Zaire incorporasse essa força”, explica Anifa.

ZAIRE DENIM SET / REPRODUÇÃO: HANIFA.CO

A cereja no bolo da coleção é a Collette T-shirt, criada em parceria com a Responsible Sourcing Network. Hanifa doará 20% das vendas das camisetas para apoiar as famílias congolesas afetadas pela mineração ilegal de coltan no país.

As criações de Anifa evocam não só beleza, mas também um senso histórico-cultural tão pessoal e coerente ao seu trabalho e, ao mesmo tempo, tão engajado com o que vivemos no mundo hoje. É justamente esse fio condutor que torna o trabalho de uma mulher negra tão relevante dentro de uma sociedade que impõe tantos obstáculos para o seu sucesso. Anifa Mvuamba, não é só um exemplo de designer de moda, mas também de perseverança para todo o mundo.

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