Com todo mundo em casa, isolado, por causa das restrições devido à pandemia do novo coronavírus, o consumo de moda mudou. Parece até supérfluo comprar uma peça de roupa caríssima em vista do atual cenário mundial. O que será da moda pós COVID-19 e quais as tendências para o setor?

Marcas no mundo inteiro já sentem os impactos causados pela obrigatoriedade de fechar suas lojas físicas momentaneamente e pela crise econômica. O setor da moda é um dos mais afetados e as grifes estão se revirando para manter suas portas abertas. Muitas marcas pararam suas produções e começaram a fabricar máscaras de proteção, cancelaram desfiles e adiaram lançamentos de coleções inteiras.

O grupo dono da ZARA anunciou o fechamento de 1200 lojas (16% do seu total de pontos de venda globais) até o final de 2020, após as vendas caírem 44%. A estratégia da marca ao fazer isso é impulsionar as vendas no e-commerce de forma mais agressiva. O objetivo é chegar a 25% do total de vendas online até 2022, contra os 14% no último ano.

AS MÁSCARAS DE PROTEÇÃO FORAM GLAMOURIZADAS E TORNARAM-SE ACESSÓRIOS FASHION. / REPRODUÇÃO

A história mostrou repetidamente como as crises políticas e econômicas tiveram efeitos marcantes sobre a indústria da moda. A Grande Depressão de 1929 trouxe o lema de reutilização e repetição, na tentativa de conter o desperdício. A Primeira Guerra Mundial substituiu os grosseiros espartilhos por cabelos e saias curtas e roupas mais confortáveis. O minimalismo foi a marca registrada das roupas provocada pela recessão em 2007. Agora, com a pandemia do COVID-19 não é diferente e a moda já aponta mudanças significativas no setor.

Fomos forçados a rever valores e mudar o comportamento de consumo. A indústria da moda andava a passos largos, em constante crescimento e com preocupação ambiental muito insignificante. O impacto da pandemia nos obriga a ter um novo olhar mais atento e crítico em relação às tendências, marcas e atitudes. É um apelo do planeta Terra para que a moda desacelere e mude de direção.

“Não respeitamos o planeta até agora e de certa forma isso [pandemia] é uma mensagem e, infelizmente, é uma mensagem muito, muito pesada. Mudança tinha que ser feita. Todos pensaram que a mudança ocorreria gradualmente, mas não é esse o caso. A mudança precisa ser feita agora e rapidamente.”, explica Sara Maino, vice-editora chefe da Vogue Italia. Você pode acessar a entrevista completa sobre coronavírus e impacto na sustentabilidade da moda clicando AQUI.

Confira, abaixo, as principais tendências que começam a delinear a moda pós COVID-19:

Slow Fashion

Os hábitos de consumo estão sendo revistos, uma vez que as pessoas aprenderam que o isolamento social não exigiu qualquer vaidade de moda. Dessa forma, a direção que toma o consumo consciente é menos peças e mais qualidade para que sejam duradouras. Além disso, em relação aos hábitos de consumo neste momento, existe uma maior preocupação com os valores de uma determinada marca e os cuidados que ela tem em toda cadeia produtiva.

O movimento Slow Fashion surgiu em 2004 como uma alternativa socioambiental mais sustentável no mundo da moda. Essa tendência preza pela diversidade, valoriza as marcas locais e promove consciência ambiental. São produtos com vida útil mais longa que se opõe ao consumo descontrolado e a clonagem de estilos.

Essa prática do Slow Fashion contrapõe o Fast Fashion, que prioriza a fabricação em massa, a globalização e a mão de obra a preços extremamente baixos, além de ocultar os impactos ambientais do ciclo de vida dos produtos.

COLEÇÃO DA MARCA DE SLOW FASHION CURITIBANA, REPTILIA / FOTO: THAYNARA OLIVEIRA

Marcas nacionais e locais

Priorizar o local em relação ao global já era uma tendência mesmo antes da pandemia e deve se acentuar para o setor da moda pós coronavírus. Muito ligado ao Slow Fashion, o movimento de apoiar marcas de moda locais tem sido muito estimulado pelas diversas mídias no período de pandemia. A Editora Globo lançou a campanha “Apoie o negócio local” e o Instagram criou o adesivo “Apoie as pequenas empresas” para a ferramenta Story.

Essa tendência é uma forma de resistir contra a avalanche da globalização. Além disso, ao comprar da marca local, abre caminho para que declarações de estilo exclusivas surjam de diversas partes do mundo, em vez da clonagem de certos estilos que estavam em ascensão devido às mídias sociais e ao hiperconsumismo. Provavelmente testemunharemos durante a pandemia o surgimento de tendências de moda práticas, austeras e econômicas à medida que o consumidor estiver emocional e economicamente exausto.

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Brechós e guarda-roupas compartilhados

O desejo pela moda sempre existirá, porém é possível estar na moda sem possuí-la. Os consumidores estão expandindo sua consciência e perceberam que não precisam de tudo o que têm no guarda-roupa. Está na hora de retirar o supérfluo!

Os guarda-roupas compartilhados são uma derivação do mercado de aluguel que vem crescendo muito. Esse modelo de locação é muito atrativo, pois traz novidades e atualizações rápidas de tendência na velocidade do Instagram, além de valorizar o consumo mais lento e as compras sustentáveis.

A loja de moda jovem Urban Outfitters já implementou o Nuuly, um programa de locação que permite ao cliente alugar seis itens (até um valor combinado de US$ 800) por US$ 88 por mês.

O desapego e a reutilização são umas das tendências que mais crescem no universo da moda. Os brechós ganham peças icônicas de boa qualidade, muitas vezes usada apenas uma única vez. Esse segmento de segunda mão cresce, atualmente, mais que a indústria de luxo.

A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) apontou que seis em cada 10 consumidores compraram algum item de segunda mão entre 2018 e 2019. A maioria dos entrevistados, 96%, ficou satisfeita com a transação. Confira AQUI toda a pesquisa sobre consumo colaborativo.

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Revisão dos calendários de lançamento de coleções

O ritmo acelerado de lançamento de coleções, com grifes fazendo até 6 desfiles diferentes por ano, já se mostrou problemático há um bom tempo. Coleções de inverno desembarcam nas lojas quando os termômetros marcam 30 graus e coleções de primavera são vendidas com descontos antes das primeiras flores da estação brotarem. Tudo isso sem falar nos problemas ambientais causados pela indústria têxtil: poluição e esgotamento de recursos naturais.

Propostas para reformular o sistema da moda surgem aqui no Brasil e lá fora, a fim de ter menos coleções por ano (idealmente duas) e coleções sendo vendidas dentro das respectivas estações, com menos promoções e liquidações. A SPFW cancelou sua temporada de abril e estilistas brasileiros junto a showroons se organizaram em torno de um novo calendário de varejo.

Saint Laurent saiu do calendário oficial da Paris Fashion Week e irá apresentar suas novas coleções em seu próprio ritmo. Com a Gucci não foi diferente. A grife abandonou o modelo de estações e deixará de fazer 5 desfiles para fazer apenas 2 por ano, juntando desfiles masculinos e femininos e deixando de mostrar as pré-coleções.

FOTO: DESFILE DE OUTONO 2017 DA GUCCI  / REPRODUÇÃO

Acessórios de proteção

Claro que as máscaras de proteção, luvas e viseiras não vão ficar de fora. Esses acessórios tornaram-se ícones fashion e chegaram para ficar! Com a crise sanitária sem precedentes na história, percebemos que são mais que simples acessórios de proteção, são indicadores de empatia, cidadania e respeito ao próximo.

MÁSCARA DA ESTILISTA COLLINA STRADA / REPRODUÇÃO

A marca carioca Osklen gerou muita polêmica nas redes sociais devido ao preço descomunal cobrado por um conjunto de duas máscaras de proteção (R$147,00). A campanha da empresa, chamada “Respect & Breathe”, mesmo envolvendo doação de cestas básicas recebeu muitas críticas e o preço foi considerado abusivo. O momento pelo qual passamos exige empatia, e os consumidores condenam o comportamento abusivo das marcas de moda.

FOTO: REPRODUÇÃO

Embora os negócios continuem sendo muito afetados negativamente, a pandemia proporcionou a oportunidade de pausar, pensar e reavaliar. É necessária uma mudança na maneira como interpretamos a moda. Os valores propagados pelo Fast Fashion precisam se desacelerar e mudar de direção, acompanhando a mudança do comportamento dos consumidores de moda.

Já vemos sinais do novo normal para o universo da moda pós COVID-19. A palavra que irá guiar esse futuro é conscientização. Sobre o meio ambiente, sobre empatia com o próximo e sobre exclusividade no estilo. Portanto, a marca que quiser ingressar ao novo mercado terá que se inovar, ser completamente transparente e sustentável, agregando valor social em seus produtos.

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