No mês de junho, a grife Calvin Klein realizou uma mega campanha em comemoração ao Mês do Orgulho LGBTQIA+. Entre os 9 rostos selecionados para modelar a campanha, Jari Jones se destacou: uma mulher trans preta plus-size e lésbica foi outdoor da marca de roupas íntimas mais famosa do mundo.

Jari Jones é uma das pouquíssimas mulheres trans negras que têm a oportunidade de participar de uma icônica campanha deste tamanho dentro da moda. Vale lembrar que a indústria da moda pode ser vanguardista quando o assunto é design, porém, em relação à inclusão, o segmento ainda soa um tanto antiquado e pouco receptivo às diversidades.

Ela comemorou com uma garrafa de champanhe junto aos seus amigos, que seguravam cartazes dizendo “Black Trans Lives Matter”.

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There are moments that I heard about, that help you forget when the world told you “Never” !!! . . There are these moments I heard about about that help you heal when the society has tried to beat you down , over and over again. . . There are these very real moments that I heard about that help you feel affirmed even when you don’t see yourself. . . I’ve been searching my whole life for those moments, I got tired of looking for those moments. . . So I decided to create them. Not for me but for the next dreamer, outcast, queer, trans, disabled, fat, beautiful black, piece of starlight waiting for their moment to shine. . . It has been such an honor and pleasure to sit in my most authentic self and present imagery of a body that far to often has been demonized, harassed , made to feel ugly and unworthy and even killed. . . I present this image ,myself and all that my body stands for to my community and chosen family, in hope that they see themselves more clearly than ever and further realize that they are worthy of celebration , of compassion , of love and gratitude. . . – Thank you to @ryanmcginleystudios and the @calvinklein family for a collaboration that will hopefully be a symbol of hope and love during these moments. BLACK TRANS LIVES MATTER!! . . . . #calvinklein #blacklivesmatter #blacktranslivesmatter #transisbeautiful #queer #celebratemysize #actress #honormycurves #pride🌈 #bodydiversity #soho #effyourbeautystandards #curvygirl #curvemodel #influencer #billboard #plussize #plusmodel #influencer #plussizemodel #bodypositive #swimwear #campaign #newyork #melanin #model #ad #sponsored

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Quem é Jari Jones?

Aos 29 anos, além de modelo e ativista pelos diretos LGBTQIA+, Jari Jones inclui no seu currículo atriz e cineasta.

Foto: Reprodução do instagram @iamjarijones

Seu pronome é Ela/Dela. Durante a infância, foi na arte e no jeitinho “nerd” que Jari encontrou maneiras de expressar sua feminilidade sem ser policiada por sua família. Foi, então, na faculdade quando ela mudou socialmente e começou sua transição, inicialmente se identificando como não-binário e saindo do processo como uma mulher transsexual.

Em entrevista para a Office Magazine, Jari fala sobre sua transição: “Agora estou vivendo minha vida da melhor maneira possível e respeitando mais o que penso sobre feminilidade, em vez de alcançar o modelo que a sociedade nos impõe”. Leia a entrevista completa clicando AQUI.

Como ativista, Jari é ávida nas suas causas, lutando pelos direitos LGBTQIA+ e participando do movimento Black Lives Matter. “Se eu vejo outra pessoa trans ou queer sendo atacada na rua, eu levo o ataque para o pessoal, porque eu posso ser a próxima”, explica ela.

Jari Jones e sua esposa Corey, também mulher trans. Fotografia e direção de arte: Camila Falquez

Jari se tornou a primeira mulher negra transsexual a participar de um filme competindo em Cannes, Port Authority. Além de ser membro do elenco, foi também consultora de roteiro, treinadora interina e até produtora. Para ela, Hollywood tem sido uma experiência ótima e perversa ao mesmo tempo, pois existe muito preconceito, racismo e transfobia na indústria cinematográfica.

As mulheres trans negras não têm visibilidade na cinematografia nem na moda, então Jari decidiu ser uma inspiração para as outras.

#ProudOfMyCalvins

Dentre os rostos escolhidos para a campanha da Calvin Klein para o Mês do Orgulho, além de Jari Jones, Pabllo Vittar foi convidada para ser a primeira Drag Queen a representar a marca globalmente. A campanha inclui uma série de vídeos em que os convidados se abrem sobre suas experiências e revelam o que o Orgulho significa para eles.

Assista ao vídeo promocional da campanha com Jari Jones:

A grife vem atuando em parceria com iniciativas e organizações que lutam pelos direitos LGBTQIA+. O objetivo da campanha #ProudOfMyCalvins é reunir fundos para as instituições OutRight Action International, onePULSE Foundation e PFLAG National.

Devido à pandemia do COVID-19, as organizações perderam doações e muitas pessoas LGBTQIA+ estão em situação de rua ou trabalham no mercado informal e estão impossibilitadas de exercer suas funções. Nas redes sociais, a Calvin Klein diz que é mais importante do que nunca estarmos juntos com a comunidade LGBTQIA+ em todo o mundo impactada pela crise do COVID-19.

Foto promocional da modelo para a campanha #ProudOfMyCalvins / Reprodução

A importância da campanha

O preconceito sempre esteve assombrando as sociedades do mundo. Entretanto, com a eleição de Representantes de Estado muito conservadores e preconceituosos, os Estados Unidos, o Brasil e outros países tornaram-se territórios férteis para práticas discriminatórias. Desde 2018, vemos uma propagação absurda de discursos de ódio que não são proibidos pelo governo ou pelas mídias sociais.

Marielle Franco, João Pedro e George Floyd foram vítimas do racismo que, além de pessoas, mata famílias e sonhos. Sabendo disso, Jari Jones não é apenas uma modelo posando para a Calvin Klein. Seu rosto se tornou uma grande inspiração para outras pessoas como ela, que encontram grande dificuldade para realizar seus sonhos por ser uma mulher negra. Ser preto é lindo e a modelo mostra isso de forma autêntica.

Em um contexto de luta antirracista, em que as pessoas brancas fazem um post com #blackouttuesday apenas para tirar o peso de ajudar das costas, é muito significativo colocar uma mulher trans preta e plus-size como protagonista de uma mega campanha de moda com impacto mundial.

Outdoor da mega campanha da Calvin Klein para o mês do Orgulho LGBTQIA+, em Manhattan.

“Eu nunca vi uma mulher negra trans colocada em uma plataforma tão pública para ser celebrada. E foi como uma experiência extracorpórea”, explica a modelo.

Além de preta, é uma mulher transgênero, o que significa mais preconceitos e barreiras durante a vida (tanto profissional como pessoal). Quantas pessoas transsexuais com grande relevância na moda você conhece?

Portanto, é, no mínimo, empoderador quando uma das marcas de roupas íntimas mais famosas do mundo coloca uma mulher trans para ser estrela de uma campanha. Jari Jones se tornou um ícone de superação para jovens garotas e garotos trans que se viam fadados ao fracasso apenas por serem quem são. Ademais, a modelo inspira as pessoas trans a compreenderem sua própria beleza e não se sentirem obrigados a seguir o padrão cis. O trans, assim como o cis, é lindo na sua individualidade.

Mais do que inspirar as pessoas, acredito que Jari inspira marcas de moda para empregar pessoas trans em toda a cadeia produtiva. Segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% da população trans e travesti brasileira trabalha no mercado informal. É um número assustador que deve ser combatido!

Jari Jones no red carpet de Cannes. Ela foi a primeira mulher trans negra a participar de um filme competindo em Cannes, Port Autorithy. / Foto: Jacovides Moreau

“O fato de alguém como eu – uma mulher trans, uma mulher negra, uma mulher de tamanho grande – ser celebrada com um calibre tão alto me leva de volta às pessoas que lutaram por mim para chegar lá. Muitas vezes, quando essas realizações acontecem, as pessoas ficam tipo: ‘Você fez isso sozinha.’ Não, sou o resultado de várias comunidades que tornaram possível continuar a linhagem de ativismo e representação.”

A gordofobia é outro preconceito que Jari Jones quebra ao ganhar um enorme outdoor em Manhattan. Pelo menos na moda, ainda é um grande tabu se falar em gordofobia, uma vez que o setor é pouco receptivo à diversidade corporal. Antigamente, marcas de moda como Calvin Klein só davam espaço para modelos esqueléticas que seguissem o estereótipo de beleza considerado como padrão e único.

Quando uma modelo plus-size representa uma marca de roupas íntimas é significativo para se combater a supremacia de apenas um corpo ser considerado bonito. Jari Jones mostra que a diversidade de corpos é algo lindo e deve ser respeitado pelas marcas de moda. A Calvin Klein convida grifes para alinhar-se com a inclusividade corporal, criando peças com numerações maiores e colocando modelos de todos tamanhos em suas campanhas.

Foto: Reprodução do instagram @iamjarijones

Por fim, essa campanha da Calvin Klein protagonizada por Jari Jones é muito importante em dois aspectos de influência. Por um lado, a modelo trans preta e plus-size se torna um ícone para pessoas que se identificam dessa forma e não encontram esperanças profissionais; a campanha mostra que essa comunidade tem um lugar na moda, mesmo que de forma discreta momentaneamente. Por outro lado, a campanha revela às outras marcas de moda a extrema necessidade de se empregar pessoas trans em toda cadeia produtiva e expandir o conceito de beleza pré-estabelecido como “padrão”.

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