O documentário The True Cost questiona uma face pouco conhecida da indústria da moda. É uma história sobre as roupas que vestimos, as pessoas que fazem essas roupas e sobre os impactos sociais, econômicos e ambientais que estão tendo em nosso mundo.

Quem paga o verdadeiro custo do vestuário que compramos? O diretor criativo Andrew Morgan investigou exatamente essa questão ao longo do filme, estreado em 2015.

“De onde suas roupas vêm?” Gif/Reprodução: Internet

É inegável a importância cultural e política que damos às roupas, afinal, elas são a pele que escolhemos. Ao longo da história, aprendemos a comunicar quem somos em até certo ponto por meio do vestuário. Entretanto, no passado, havia um sistema de moda que contava com até 4 coleções por ano, respectivas a cada estação, e que hoje já não faz mais sentido. A indústria da moda foi reinventada impiedosamente, seguindo uma forma de produção que só se preocupa com os grandes interesses comerciais.

Ao invés das tradicionais 4 estações, as marcas de moda Fast Fashion trazem até 52 estações por ano, com coleções novas praticamente toda semana. Além disso, ao comparar o preço das roupas hoje com o passado, observamos uma deflação do produto, ou seja, o preço caiu com o passar do tempo. Todavia, os custos de produção só aumentaram e quem paga essa conta não é diretamente o consumidor das grandes lojas de departamento.

A tendência da produção têxtil

Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Vivemos em um mundo de produção globalizada. Isso significa que toda a produção de mercadorias foi transferida para economias de baixo custo, principalmente onde os salários são extremamente baixos e não possuem reajustes. Até bem recentemente, nos anos 60, 95% das roupas vendidas nos EUA eram feitas lá mesmo. Hoje, esse número é menor que 3%, e os outros 97% são feitas em países em desenvolvimento no mundo todo.

O documentário The True Cost nos leva para Daca, a capital de Bangladesh, onde foi cenário do maior desastre da indústria de vestuário e trouxe um lado desconhecido da moda para as primeiras capas dos jornais. No ano de 2013, um edifício chamado Rana Plaza desabou, matando 1127 trabalhadores da indústria têxtil, que fabricavam roupas para marcas como o Grupo Benetton, The Children’s Place, Primark, Monsoon, DressBarn e H&M. O mais surpreendente é que os trabalhadores já haviam relatado rachaduras no antigo prédio, porém foram ignorados.

Desabamento do edifício Rana Plaza (2013), em Bangladesh. Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Em entrevista com um proprietário de fábrica têxtil em Daca, nos é revelado que no ocidente as marcas de moda competem entre si pelo menor preço e, dessa forma, exigem redução de custo para os produtores têxteis. Uma vez em uma sociedade de produção globalizada, caso não cumpram o preço solicitado, perdem seus compradores, que procuram negócios em outro lugar mais barato.

O trágico episódio do edifício Rana Plaza nos mostra como as indústrias são capazes de garantir o lucro, em detrimento do crescente dano aos direitos humanos essenciais de seus trabalhadores. Nem mesmo um salário mínimo decente é assegurado aos empregados, que recebem até 2 dólares por dia em um regime de trabalho qualificado como escravidão moderna nas “Fábricas de Suor”, como menciona o documentário.

Uma em cada seis pessoas vivas no mundo atualmente trabalha em algum setor da indústria mundial da moda, fazendo dela a indústria mais dependente de trabalho na Terra. A maior parte desse trabalho é feita por pessoas sem voz na cadeia de fornecimento mais ampla, pagando o custo das roupas com suor e capital humano.

The True Cost descontrói a visão fantasiosa que temos a respeito da indústria da moda, expondo que salários baixos, condições inseguras, tempos excessivos de jornada de trabalho e desastres nas fábricas não devem ser “perdoados” devido aos empregos necessários criados para pessoas sem alternativa.

Os impactos da agricultura modificada

Em função do ritmo de produção acelerado característico do Fast Fashion, a agricultura teve que se adaptar e andar a passos largos. Atualmente, o algodão está sendo reinventado para acompanhar essa tendência e cerca de 80% da fibra de algodão das roupas fabricadas no mundo já é geneticamente modificada.

Grandes Planícies do Texas, maior área de plantação de algodão do mundo. Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

De certa forma, a natureza possui a capacidade de se curar em pequenas áreas. Entretanto, a Terra passou a ser vista quase como se fosse uma fábrica movida a agrotóxicos e produtos químicos de produção para acompanhar o processo de intensificação da agricultura. Nessa grande escala de contaminação, a Terra não consegue se curar e os impactos dos resíduos no solo e nas comunidades próximas são alarmantes.

Ainda, o filme menciona a indústria de químicos e tecnologia agrícola, comparando-a com a indústria bélica em questão de impacto sobre o meio ambiente e sobre a saúde humana. O contato direto, por meio da água ou do manuseio dos produtos químicos, causa defeitos congênitos, cânceres e doenças mentais. O mais irônico dessa situação é que as empresas que fazem e vendem os agrotóxicos são as mesmas que produzem os remédios patenteados para o câncer. Para as grandes corporações tudo gira em torno do lucro e até mesmo o câncer é lucrativo.

Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Isso é exemplificado com a Monsanto, maior corporação responsável pela distribuição de agrotóxicos, fertilizantes e sementes modificadas da história.

O impacto social

Conforme as pesquisas revelam o tamanho do impacto que a moda está tendo em nosso mundo, mais claro são os efeitos dela sobre nós, os consumidores dessas roupas. O contexto em que vivemos está repleto de pessoas infelizes, ansiosas e deprimidas, em discordância da mensagem propagada pela publicidade de moda, a qual sugere que o materialismo e a cobiça por bens são fonte de felicidade inesgotável.

E lá vai uma autocrítica de um publicitário em formação sobre a publicidade:

A mensagem publicitária dentro da indústria da moda é criada para convencer as pessoas de que suas necessidades serão atendidas pelo consumo. Esta mensagem básica é sempre a mesma: a forma de resolver os problemas da vida (todos temos problemas) é através do consumo. Na verdade, quanto mais as pessoas se concentram nos valores materiais, no dinheiro e na imagem, menos felizes elas são.

Vídeo/Reprodução: Documentário The True Cost

Outro aspecto social levado em conta no filme The True Cost é o empobrecimento crescente das comunidades, acompanhado pelo desaparecimento da classe média, um processo muito recente que ganhou repercussão em um período de 20 anos. Durante esse recorte temporal, a moda mudou dramaticamente e os preços das roupas caíram em escala exponencial.

Nesse cenário, o que as pessoas realmente precisam, como moradia, estudos e planos de saúde, é muito caro. Por outro lado, há o consolo do Fast Fashion para parte das angústias: os consumidores podem comprar uma ou até duas roupas muito baratas para uma festa, mesmo sendo pobres e tendo perdido o que precisavam. Isso resultou no hiperconsumismo da indústria de vestuário, que levou as peças de roupas a serem vistas como bens de consumo não duráveis e muito facilmente descartáveis.

Desolação do Meio Ambiente

A quantidade de roupas e tecidos descartados nos lixões de forma imprópria tem acompanhado o ritmo acelerado da produção Fast Fashion. Lamentavelmente, a maior parte dessas roupas não são biodegradáveis, e permanecem em seus locais por 200 anos ou mais, poluindo o futuro do ambiente com substâncias tóxicas.

Para ilustrar o tamanho desta poluição do meio ambiente, o documentário The True Cost traz dados chocantes. Um norte-americano comum joga fora cerca de 38 quilos de lixo têxtil por ano, totalizando uma produção de 11 milhões de quilos de lixo têxtil por ano, apenas dos Estados Unidos. Além disso, estima-se que uma peça comprada em uma loja de moda Fast Fashion é usada somente por cerca de cinco vezes.

Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Isso acontece porque devido aos baixos preços, os consumidores se sentem estimulados a comprar sempre mais, ainda que não precisem ou já tenham peças semelhantes em seu guarda-roupa. Entretanto, a moda não deve e nunca poderá ser pensada como um produto descartável.

A indústria da moda é o segundo setor mais poluente do mundo, perdendo apenas para a indústria do petróleo. O filme The True Cost descreve os lixões como cemitérios de roupas e tecidos. Conforme os anos passam, as substâncias tóxicas liberadas por esses lixões interferem no meio ambiente e na saúde das pessoas próximas.

Outra grande preocupação para o meio ambiente surge durante a fabricação de roupas e sapatos, processo no qual são descartados reagentes químicos nocivos de forma imprudente. Resíduos tóxicos e produtos químicos pesados, como o Cromo-6 utilizado na fabricação do couro, são despejados pelos curtumes nos rios locais contaminando o solo, a fauna, a flora e os moradores que utilizam dessas águas para tomar banho e cozinhar seus alimentos.

Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Em lugares como Kanpur, na Índia, bem longe dos olhos do mundo, grandes marcas ocidentais obtém as matérias primas necessárias enquanto negam o aumento do custo para o meio ambiente e a saúde humana.

O filme The True Cost

A discussão do filme é muito longa e não cabe em um blog post. Contudo, é interessante mencionar que o capitalismo não se desenvolve de forma regular: em primeiro lugar, o sistema é nutrido pelas desigualdades e diferenças. A posição periférica dos países em desenvolvimento é a circunstância propícia para a permanência deste sistema no qual as grandes empresas internacionais abusam do capital humano (mão de obra) a preços muito baixos em favor da acumulação de capital financeiro. Esse cenário é ideal para que haja degradação da condição humana.

“Eu não quero morrer pela moda” Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Como forma de construir uma indústria de moda sustentável e humanitária em toda a cadeia produtiva, o documentário sugere meios de moda alternativos, que garantem uma rede de comércio equitativo. Isso se configura como uma resposta dos profissionais e cidadãos para corrigir a injustiça em um contexto de produção e comércio globalizado amplamente disfuncional. Essa tendência de sistema colaborativo combate o desrespeito aos trabalhadores que não recebem salário suficiente e ao meio ambiente que não é levado em consideração ao fazer os produtos que compramos diariamente.

Nesse quadro, a marca de moda People Tree, criada por Safia Minney, se destaca como vanguardista do comércio equitativo. A grife ressalta como a essência da produção de cada peça o reconhecimento das mulheres envolvidas, o desenvolvimento social de seus trabalhadores e o respeito ao meio ambiente. Desse modo, cada pequena etapa da cadeia produtiva tem seu valor, manifestando uma forma de produzir consciente e sustentável para as comunidades e a natureza.

Ainda, o filme sugere formas de agricultura que preservem a Terra, uma vez que somos seus administradores e devemos respeitar a vida que há nela. Nessa condição, a plantação orgânica se enquadra muito bem, pois substitui o uso de agrotóxicos e produtos químicos que contaminam o meio ambiente por métodos tradicionais de cultivo sintonizados com a natureza e os ciclos de estações do ano.

“Orgânico + Troca Justa = Algodão :)” Safia Minney, criadora do projeto People Tree, com produtores de algodão orgânico. Foto/Reprodução: Documentário The True Cost

Por fim, mesmo desmascarando a utopia da indústria da moda e revelando que os custos são muito menos pagos por nossas carteiras em comparação aos custos de trabalho humano e degradação do meio ambiente, o documentário The True Cost termina com palavras de mudança.

Depois de abrir nossos olhos, ficaremos satisfeito com esse sistema que continua a empobrecer dramaticamente o nosso mundo? Continuaremos a ignorar a vida daqueles que estão por trás de nossas roupas? Cabe ao telespectador refletir sobre os custos de seus atos, consciente de que tudo que usamos foi tocado por mãos humanas.

Talvez a mudança que o mundo precise para corrigir o sistema, que em sua essência é impiedoso e perverso, comece ­­­por meio das roupas.

O filme The True Cost, atualmente, não está disponível em nenhuma plataforma de Streaming. Você consegue acessar mais detalhes e comprá-lo no site truecostmovie.com.

Assista ao trailer do documentário:

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