O novo filme da Disney faz parte de uma longa linha de filmes de Hollywood que demonizam a indústria da moda. Em ‘Cruella’, a jornada da protagonista é o pretexto necessário para abordar os estereótipos cinematográficos sobre uma moda tóxica que valida relações abusivas de trabalho e competitividade autodestrutiva.

Desde que os primeiros filmes sobre a indústria da moda foram lançados, esse mundo é retratado como um elegante covil de caricaturas, maldade e, ocasionalmente, criminalidades. Não importa se o filme é uma comédia, um drama, uma sátira ou um musical, constroem ao longo do enredo um sistema de valores distorcido e muito distante daquele que cultivamos no dia a dia.

E, assim, continua a demonização da moda… seu papel de metaforização de tudo o que é moralmente corrupto e desonesto no mundo. É um dos clichês mais amados de Hollywood, embora cada vez mais fútil.

Se a moda é tóxica, Cruella é mais tóxica ainda!

Cruella estreou dia 27 de abril com lançamento simultâneo nos cinemas e na Disney+ com Premier Access, pelo preço de R$69,90 (pasmem!).

A história protagonizada por Emma Stone acompanha Estella (e seu alter ego Cruella), uma jovem estilista ansiosa por crescer na carreira e mostrar todo seu potencial na moda, porém acaba se unindo a criminosos para garantir a sobrevivência. Por ironia do destino, ela chama a atenção da estilista Baronesa Von Hellman (Emma Thompson), uma versão mais autocrática e perversa da famosa Miranda Priestly, que conhecemos no Diabo Veste Prada.

O filme é ambientado em Londres nos anos 70, década marcada pela revolução do punk rock e o roteiro traz isso como um tópico importante para a formação da personalidade de Cruella. De uma forma mais pop e açucarada, as inspirações do punk se fazem presentes na deliciosa trilha sonora e no escandaloso figurino da vilã, que ganha no longa ares de princesa roqueira em um visual cheio de referência às criações de Vivienne Westwood.

Coleção de outono-inverno 2018/2019 de Viviene Westwood. O estilo punck rock da designer inspirou o figurino de Cruella com muitas referências.

Verdade seja dita, antes mesmo do filme ser lançado, já havia grandes expectativas a respeito do figurino de Cruella e sua rival Baronesa. O styling foi assinado por Jenny Beavan, vencedora do Oscar por seu trabalho em Uma Janela Para o Amor (1985) e em Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

O look mais icônico foi um vestido de organza com mais de 5 mil pétalas de flores costuradas à mão. Cruella está vestida com ele quando sobe em cima de um carro e o cobre com a sua saia

No total, o longa-metragem conta com 277 figurinos diferentes, dos quais Cruella DeVil veste nada menos que 47 figurinos e essa quantidade é bem maior do que os looks usados pela personagem no desenho animado, que é facilmente caracterizada com um vestido preto decotado e um casaco de pele. Já sua rival, personagem de Emma Thompson, contou com 33 figurinos.

O contraste entre os figurinos das duas personagens metaforiza o duelo entre a rebeldia revolucionária e a autocracia velada. O padrão de cores utilizadas por Cruella, já em seu alter ego vilã, e a Baronesa são delimitados, na qual a primeira utiliza vermelho, preto, branco e poucos tons cinzas, enquanto a segunda usa mais marrom e dourado.

Baronesa Von Hellman, interpretada por Emma Thompson, com seus dálmatas (daí que surge a famosa rivalidade entre Cruella e os dálmatas).

Cabe aqui falar que o filme foi um mistério surpreendente! As adaptações da Disney para o cinema são uma incógnita que variam entre 8 e 80. Às vezes uma atualização consegue superar o original em encanto e espetáculo, como é o caso de “Malévola”. Outras, deixa um gosto amargo e o questionamento se o antecessor era tão bom assim, como em 2019 por “O Rei Leão”.

Assim, “Cruella” se desprende sem pudor da tarefa de ser outra versão live action de um clássico da Disney para se assumir como uma fantasia punk rock sobre os bastidores bélicos do mundo da moda. Sem dálmatas, mas com muito charme! É descolado, faz bem aos olhos e compensa suas eventuais falhas com um caminhão de fúria pop.

Sem falar que é quase impossível um filme estrelado por Emma ao quadrado (Stone e Thompson) dar errado…

Cruella: seus melhores looks

Ame ou odeie, é inegável que Cruella é um filme lindo de se ver, e tudo isso graças ao incrível figurino. Cruella é um sonho tornado realidade para os amantes da moda, uma anarquia de riquezas de estilo e qualidade. Com tantos looks inesquecíveis para escolher, é difícil escolher um e considerá-lo o melhor. No entanto, algumas peças verdadeiramente brilhantes ficarão na história como alguns dos melhores trajes da história de Hollywood, sem dúvida.

Vestida para matar

Há uma cena, mais ou menos na metade do filme, em que a Baronesa está bebendo champanhe com sua funcionária prodígio (a designer Estella) e dando um sermão sobre o que é preciso para ter sucesso nos negócios da moda.

“Você não pode se preocupar com mais ninguém”, diz a Baronesa, franzindo seus lábios vermelhos perfeitos e expondo seus dentes perfeitos. “Todo mundo é um obstáculo. Quando você se importa com o que um obstáculo deseja ou sente, você está morta. Se eu me importasse com alguém ou algo, eu poderia ter morrido como tantas outras mulheres brilhantes, cheias de criações geniais, desconhecidas e com o coração cheio de amargura. Você tem o talento para ter sua própria marca. Se você tem o instinto assassino, é a grande questão. ”

E ela não estava brincando quando disse “assassino”!

A moda empodera mulheres

Como o mercado moda foi por muito tempo uma das poucas indústrias em que as mulheres podiam chegar ao topo, frequentemente, os cargos superiores eram ocupados por mulheres. E, muitas vezes, seu poder era visto com desconforto por aqueles de fora. Portanto, para se tornar mais aceitável diante uma sociedade machista, essas mulheres trabalhadoras que tiveram sucesso foram difeminizadas, ou seja, transformadas na Bruxa Má do Oeste. Embora com roupas melhores.

Se você tem uma personagem que supostamente é poderosa e malvada, a maneira mais rápida de convencer os espectadores de suas falhas é torná-la uma designer ou editora de moda. Como a atual Cruella de Vil, que nem sempre foi estilista.

Em “101 Dálmatas”, o livro de 1956 de Dodie Smith, Cruella era a esposa de um rico peleteiro – assim como no primeiro filme de animação da Disney, em 1961. Só quando Glenn Close a incorporou na versão live action de 1996 que ela se tornou uma designer por conta própria, administrando a grife House of DeVil.

O estereótipo de mulheres poderosas na moda como sociopatas – e seus assistentes como leais irrefletidos – não é novo. Embora o filme indique vagamente questões do mundo real que atormentam a indústria da moda até hoje – seja a exploração no local de trabalho, o sexismo ou os egos excessivamente inflados que são um produto inevitável de sua cultura de gênio – nem sempre os materializa. O conceito permanece preso na fantasia, apenas.

Para Hollywood justificar uma mulher poderosa basta lhe dar um grande trabalho na indústria da moda e personalidade de vilã. Miranda Priestly ilustra bem logo no início do filme, na cena em que ela chega no prédio da Runway e todos os funcionário ali correm para se organizarem para a chegada dela, morrendo de medo. Até uma mulher que estava no elevador cede a ela seu lugar e pede desculpa.

Já dizia Wendy Finerman, produtora de O Diabo Veste Prada, “onde estão as representações das mulheres mais poderosas e más do mundo? ” Ela estava falando retoricamente, porque deu sua resposta: “Moda”. 

Não é necessário mais que um olhar!

Embora a moda fascine grande parte dos telespectadores e seja uma isca brilhante para os cineastas, também é um campo minado. Como você aborda um universo que já está oscilando no limite da sátira sem cair no pântano do velho idiota? Na verdade, os filmes de moda de maior sucesso geralmente não são filmes sobre a indústria, mas filmes que usam roupas da moda como expressões de caráter. Por exemplo, “O Grande Gatsby” ou a série “Emily in Paris”.

Mesmo quando o megafone da Disney ampliou os estereótipos, a própria moda se distanciou cada vez mais dessa realidade. O filme é uma fantasia, claro! E o roteiro acerta em uma grande coisa, mesmo que não seja cronologicamente preciso: a pele não é mais considerada chique em muitos círculos.

“Todo mundo esquece que, acima de tudo, a moda é um negócio”, diz Finerman. Você poderia pensar que a falta de contato com a realidade no filme pode torná-lo menos atraente para Hollywood, mas você está errado. O mundo da moda de “Cruella” não é o mundo da moda da realidade, mas o mundo da moda da mente coletiva.

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